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Marc Houle no espírito DIY vai tirar uma selfie com você

Marc Houle no espírito DIY vai tirar uma selfie com você 1

“Ser músico, hoje em dia, é 10% fazer música e 90% fazer essas babaquices de divulgação”.

Foi o que falou em recente entrevista o produtor canadense Marc Houle.  Você já parou pra pensar nisso que ele está tentando dizer? “Você não pode mais só se preocupar com a música, tem que bombardear as pessoas constantemente, mandar releases para a imprensa sobre qualquer coisa que você faça, tirar fotos para se manter em evidência”.

Pois bem. Na semana passada, falei de quatro estratégias matadoras de um artista versátil em suas redes e hoje temos um contraponto interessante: um talento apadrinhado por Richie Hawtin ainda nos anos 1990, Houle não é um DJ e, ratinho de estúdio que sempre foi, vive focado na sua produção. E ponto.

Mas é curioso que novos desafios poderão tirá-lo dessa inércia criativa nos próximos meses. E aí, como ele vai gerenciar seu tempo?

É que conforme anunciado na mesma entrevista, de um tempo para cá, Houle saiu da aba da gravadora Minus para criar sua própria plataforma, a Items & Things, com Magda e Troy Pierce.  Será que pelo processo natural do projeto de vida, sua visão pode mudar?

Parece que sim. O compositor não consegue ser minimalista o tempo todo e já se ligou no espírito transformador que o Do It Yourself pode te trazer. Veja como ele mesmo diz na matéria: “Por anos eu fui um passageiro no trem da Minus, olhando pelas janelas sem me preocupar para onde estávamos indo. Foi uma viagem incrível, mas você precisa fazer as coisas sozinho para pavimentar a estrada do seu futuro”.

Justamente agora, a frente da agenda de lançamentos e turnês do selo, o canadense radicado em Berlim também se vê pilotando a gestão de seu próprio lance.

Tirar selfie no aeroporto ou depois da gig? Talvez. Mas fato é que os tempos mudaram até para um semi veterano do techno, e é possível que ele vai ter que agitar logo seu planejamento criativo na Internet para não ficar para trás. Seguimos os próximos passos.

Eu bato na tecla de que ser criativo na comunicação também dá liberdade para trazer a linguagem musical em novas mídias. Adotar uma voz mais bem humorado ou sóbria… vai de cada um. Bora pensar enquanto o som rola de fundo!

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E para elevar a experiência dessa reflexão, estou trazendo a opinião do especialista Mauricio Soares, vice presidente de marketing da produtora de eventos ID&T, que passou o seguinte texto em discussão em um grupo do Facebook.

Leia enquanto escuta a última pedrada cerebral lançada por Houle.

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“Acho que um ponto fundamental que sempre é esquecido nessas horas é o seguinte: fazer música não é o bastante para viver de música, assim como fazer cupcakes não é o bastante para se viver de cupcakes. A parte do trabalho dedicada de fato ao produto/serviço sempre vai ser minoritária – assim como quem tem um restaurante não passa a maior parte do tempo cozinhando, quem trabalha com eventos não passa a maior parte do tempo em eventos e quem trabalha com música não passa a maior parte do tempo tocando / criando música”.

Qualquer negócio depende de comunicação, depende de promoção, tem uma boa parcela de “babaquices” envolvidas e ilude-se quem acha que pode ser diferente. Se você vai ser um artista que cultiva o diálogo intenso em social media ou se posta somente uma coisa aqui e outra ali, aí é uma questão de estratégia – e ambos os casos podem ter (grande) sucesso. “Senão Daft Punk não seria notícia cada vez que aparecem com seus capacetes cromados por aí.

Antigamente as majors eram vistas como o “demônio”, que usurpavam o artista como se dele tivessem comprado a alma. Aí veio a internet, a democratização dos meios de produção, os canais de comunicação direta, etc, etc. Tudo lindo e maravilhoso, até que descobriram que esse empoderamento do indivíduo/artista implicava também na transferência para este de muito do trabalho que antes estava nas mãos de quem? Bingo! Das gravadoras.

Toda transformação que tem seu lado bom traz consigo também algum trauma. Não dá pra ser “empoderado” sem ser ao mesmo tempo “responsabilizado”. Não dá pra sair do underground amador sem se adaptar a determinadas coisas do “sistema” profissional. Não dá pra ser um artista que ganha dezenas de milhares de dólares por apresentação e continuar se comportando como um artista que cobra trezentão na saída da balada (ou pelo menos sem ter uma equipe foda de profissionais que tratem de toda a parte casca grossa e te deixem livre pra continuar sendo meio porra-louca).

Resumindo: Respeito pra burro o Marc Houle, e respeito ainda mais a música que ele faz, mas acho que muito do que ele colocou nessa entrevista são só “dores de crescimento”.”

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Sábias palavras, Mauricio.

Obrigado.

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Por:

Professor do curso Marketing Para DJs na DJ Ban, é DJ, jornalista e consultor artístico, com dez anos de atuação na cena eletrônica de São Paulo.